A inserção do jovem na sociedade, por Dr. Roberto Daher


Em um dos artigos anteriores fiz menção ao fato de que, para mudarmos o estado das coisas, não basta mudança de nomes, mas, sim, de comportamentos.

Infelizmente as mudanças de comportamentos nem sempre alcançam o resultado esperado em curto prazo, já que a cultura estabelecida requer tempo para ser modificada. Somente com comportamentos repetitivos é que a cultura se modifica.

Um exemplo simplista, para que possamos melhor entender: Se você tem um filho e permite que ele acorde todo dias às 11 horas, não é o acordando duas ou três vezes às 7 que ele passará a acordar este horário quando você não o despertar. Do mesmo modo, se você o acorda um dia às 11 e outro dia às 7, ele tenderá a acordar sozinho às 11, horário com o qual ele já se acostumara.

Deste modo, se você não modificarmos nosso comportamento em relação à qualquer estado de coisa já concretamente estabelecida, ela tenderá a permanecer como está. Já havia dito isso em relação à política e à necessidade de engajamento dos jovens.

Algumas críticas me foram feitas, principalmente em relação ao nível de comprometimento dos jovens, que algumas pessoas entendem estar totalmente alheios à política e à vida cotidiana.

Pois bem, inicialmente, tenho verdadeira ojeriza pela generalização. Alguns jovens são assim? Certamente sim. Todos? Óbvio que não! Eu mesmo citei alguns alunos meus que estarão concorrendo na próxima eleição ou apoiando candidatos nos quais acreditam.

Da mesma forma, preocupa-me que algumas pessoas insistam em dizer que não votarão em ninguém na próxima eleição, pois não acreditam em nenhum candidato.

Ora, muitos deles nunca tiveram a oportunidade de desenvolver um trabalho junto aos Poderes Legislativo e Executivo Municipal e nada mais justo que se lhes dê a oportunidade para isso.

Obviamente que precede à sua escolha uma análise criteriosa sobre sua capacidade de ser um bom Vereador, um bom Prefeito. Não basta ser um bom sujeito, mas, sim, deve ser uma pessoa preparada.

Mas, voltando ao assunto principal, o fato do jovem ser eventualmente alheio à vida e, até, à realidade que vivemos, deve-se principalmente à omissão dos adultos. Nós os deixamos confortáveis nessa situação.

Por isso defendo que cabe aos pais e bancos escolares, especialmente do ensino superior e prioritariamente ao Poder Público, engajar o jovem na política e na vida em sociedade.

E isso não é tão difícil quanto parece. Uma das formas mais simples e retirá-los das ruas. E, para isso, além de boa vontade, novas ideias e novos rumos.

Até algum tempo atrás, os jovens permaneciam com atividades durante todo o dia. Estudava em um período e no outro se dedicava, com o incentivo público, a praticas esportes e desenvolver atividades artísticas.

Matava-se, utilizando de expressão popular, dois coelhos com uma só cajadada: o jovem saía das ruas, onde fica muito mais acessível às más companhia, entregando-se a vícios e más condutas, afastando-se, portanto, da possibilidade maior de ser cooptado pela criminalidade e, de outro lado, possibilita a descoberta de talentos dos esportes e da arte em nosso município, a serem incentivados e desenvolvidos.

Outra possibilidade seria utilizarmos de recursos já existentes, como, a título de exemplo, o Programa Jovem Aprendiz, que, por conta da omissão das empresas e também do Poder Público, infelizmente não tem o resultado aguardado.

Fui gentil e honrosamente convidado para conhecer uma instituição sem fins lucrativos de nossa cidade, voltada para a seleção e preparo dos jovens aprendizes, o Centro de Integração Social e Aprendizagem - CISA, onde fui muito bem recebido pela sua responsável, Aline Muraoka, que me municiou de informações preciosas, algumas delas estarrecedoras.

Um exemplo: algumas tantas empresas estabelecidas em Paulínia preferem pagar a multa prevista em Lei para o descumprimento do programa do que contratar jovens aprendizes, pois o custo é menor. Ou seja, compromisso social, zero.

Não seria o caso do Poder Público Municipal cortar benefícios fiscais porventura dados a estas empresas, de modo a obrigá-las não só a cumprir a Lei, mas a demonstrar na prática seu envolvimento com a comunidade local?

Ou, então, caso se tenha o temor de que a empresa deixe nossa cidade por conta dos cortes dos subsídios – lembrando-se que o compromisso com nossa cidade é inexistente – que tal incentivá-las através de reconhecimento público? Aliás, meus amigos leitores, existe Lei Municipal que estabelece esta possibilidade, mas não é aplicada. Trata-se da Lei nº 3.101, de 2010, que possibilita a concessão do selo de responsabilidade social às empresas que contratam jovens aprendizes.

Aliás, a própria Prefeitura Municipal não está dentre estas, pois que o convênio que havia entre o poder Público Municipal e a instituição não se viu renovado após o seu término!

Outra informação que me deixou extremamente preocupado. Nenhum representante dos Poderes Legislativo e Executivo do Município visitou a instituição até aqui, seja para conhecer o trabalho ali desenvolvido, os problemas encontrados e, a partir daí, buscar soluções a eles.

E vejam só a importância do programa do ponto de vista social e para o futuro, não só dos jovens usuários, mas de toda a cidade, como acima expus.

Acredito que todo agente público deve buscar soluções para os problemas da cidade e certamente isso passa necessariamente pela valorização dos jovens e sua inserção e comprometimento na sociedade. Cobremos isso dos novos agentes que estão por vir!