Conhecendo Câncer de Bexiga – Capítulo 4

Sistema Imune e Câncer: Importantes Resultados da Imunoterapia Brasileira Divulgados no Último Congresso Americano de Oncologia – ASCO 2020



Tudo começa com o cirurgião americano William Coley (1862-1936), intrigado com uma vítima de câncer que havia se curado após uma infecção severa, ele postulou que "nossas células de defesa, quando ativadas, erradicariam o tumor".


No século 19, Rudolf Virchow mostrou as primeiras evidências de células inflamatórias em tumores, sugerindo uma possível associação entre inflamação e câncer, sendo assim, o primeiro passo à imunoterapia.


No capítulo anterior (3), falamos sobre tratamento do câncer de bexiga, enfatizando o câncer de bexiga não-músculo invasivo (CBNMI). E nesse contexto destacamos a imunoterapia e a fundamental importância da Onco-BCG no tratamento do CBNMI. Porém, novas imunoterapias têm surgido, dentre elas, a ativação de receptores do sistema imunológico (do inglês “toll-like” receptors – TLR).


Essa é apontada como uma potencial estratégia para estimular respostas imunes antitumorais, estimulando o sistema imune Inato (que já nascemos com ele) e Adaptativo (adquirido), através dos receptores TLR, induzindo a produção de uma substância conhecida como interferon. A produção de interferon estimula as células de defesa do corpo a combater os tumores e agentes agressores, como vírus e bactérias.


Nosso trabalho clínico, juntamente com os pesquisadores Dr. Wagner josé Fávaro e Dr. Nelson Eduardo Duran Caballero, realizado no Ambulatório da Saúde do Homem de Paulínia, autorizado pelo CEP (Comitê de Ética da Unicamp), tem demonstrado uma nova perspectiva terapêutica para o CBNMI, uma nano-imunoterapia sintética, genuinamente brasileira, desenvolvida na Unicamp - O Modulador de Resposta Biológica – Complexo Fosfato Inorgânico I (MRB-CFI-1)) – Registrado como OncoTherad®.


Essa imunoterapia é capaz de induzir no organismo uma resposta imune de células T, ou seja, de ativar determinados tipos de linfócitos que produzem uma proteína chamada interferon [IFN], importante tanto para combater o câncer como também alguns vírus e bactérias (https://dx.doi.org/10.2139/ssrn.3609259).



Os resultados mais atuais do estudo clínico da imunoterapia OncoTherad no câncer de bexiga foram divulgados no último Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica – ASCO 2020 (https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.2020.38.15_suppl.e17048). Esse estudo objetivou avaliar a eficácia e a segurança dessa imunoterapia ao longo dos 24 meses de seguimento terapêutico. Os resultados desse estudo demonstraram que 79,3% dos pacientes ficaram livres do tumor. Nos demais, a doença voltou com menor agressividade, o que permitiu a retirada localizada da lesão. Ainda, efeitos colaterais graves não foram observados nos pacientes, indicando que esse tratamento é seguro.


Resumindo, o OncoTherad se apresenta, até aqui, como uma excelente opção de tratamento, seguro e eficaz, para pacientes refratários a Onco-BCG em CBNMI, podendo fornecer benefícios para a prevenção da recorrência do tumor, evitando ou adiando a necessidade de cirurgia nesses pacientes.


Muito ainda temos para aprender com a imunoterapia, e em especial com o OncoTherad. Aliás, outros trabalhos usando este mesmo medicamento, em outros tipos de tumores, estão em andamento, com resultados muito promissores.


Termino aqui os 4 capítulos sobre Câncer de Bexiga e continuo em uma extraordinária jornada com imunoterapia e OncoTherad.

Dr. João Carlos Cardoso Alonso é Médico Urologista e Coordenador do Ambulatório de Urologia e Saúde do Homem de Paulínia, Titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Mestre e Doutorando pela Unicamp.