As ‘Fake News’ e suas consequências, por Dr. Roberto Daher

Ao contrário do que se imagina, a expressão fake news - em português notícias falsas – não é tão recente. Ela já era utilizada no final do século XIX para, assim como hoje, denominar informações públicas falsas.

Obviamente que, com o advento das redes sociais, essas mentiras tem uma possibilidade de divulgação muito mais rápida, alcançando, ainda, um maior número de pessoas.

Algumas notícias falsas, com manchetes chamativas, são criadas para atrair acessos aos sites e, assim, angariar vultuosas quantias com a publicidade digital.

Todavia, a finalidade das fake news que mais se destaca é, de fato, a criação de boatos e reforço de um pensamento por meio de mentiras e da disseminação de ódio. Dessa maneira, prejudicam-se pessoas comuns, celebridades, políticos e empresas, não raramente chegando a resultados desastrosos.

Um dos casos mais emblemáticos de que uma notícia falsa pode trazer prejuízos irreparáveis é o da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, que morreu após ter sido espancada por dezenas de moradores de Guarujá, no litoral de São Paulo, em 2014, depois de ser confundida com uma sequestradora de crianças para rituais de magia negra, o que era uma informação falsa.

Outro boato que tomou conta das redes e deu causa a grande prejuízo, aqui à saúde pública, foi o de que algumas vacinas seriam mortais e teriam matado milhares de crianças. Por conta disso, algumas doenças, por exemplo o sarampo, do qual o Brasil era considerado livre, voltaram a acometer crianças.

Uma outra situação constante é o boato de que se terá uma nova greve de caminhoneiros, semelhante àquela havida em 2018 e que provocou desabastecimento de diversos produtos. Em alguns municípios, filas de carros formaram-se em postos de combustíveis, pois as pessoas temiam o aumento do preço e até mesmo a falta do produto.

Um dado grave que foi constatado pelos pesquisadores do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), nos Estados Unidos, é que a chance de uma notícia falsa ser repassada é consideravelmente maior que a de uma verdadeira. Foram analisadas 126 mil notícias, e percebeu-se que a probabilidade de republicar uma informação falsa é 70% maior do que a de republicar uma notícia verdadeira.

Por isso, aproximando-nos do período eleitoral, o cuidado com a disseminação de notícias falsas deve merecer uma maior atenção, pois que sua divulgação pode inclusive interferir no resultado de um pleito, como parece haver ocorrido na eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016 – ocasião, inclusive, quando a expressão passou a ser utilizada com maior frequência pela imprensa mundial. Empresas especializadas identificaram uma séria de sites contendo notícias de conteúdo sensacionalista, envolvendo especialmente personalidades importantes, dentre as quais Hillary Clinton, então adversário do Presidente Eleito, Donald Trump.

No Brasil, a Polícia Federal investiga eventual uso desta estratégia nas últimas eleições presidenciais.

Em âmbito local, certamente alguns candidatos de caráter duvidoso e mal-intencionados haverão de utilizar esta estratégia para obter vantagens sobre seus concorrentes, procurando induzir os eleitores a erro, cumprindo a estes fazer uma triagem destas informações, a fim de tomar uma decisão correta na hora do voto.

Importante salientar que, embora não se tenha uma legislação específica para a matéria, a criação e divulgação das fake news podem caracterizar prática de crimes, especialmente aqueles praticados contra a honra – injúria, calúnia e difamação - sujeitando, assim, seu autor a uma sanção penal, sem prejuízo de eventual possibilidade de indenização na esfera cível.

Outro dado interessante é que, como os responsáveis pelas fake news atuam, geralmente, em uma região da web que é oculta para a grande maioria dos usuários, não é fácil identificá-los e, consequentemente, puni-los, sendo, portanto, muito mais fácil responsabilizar, tanto na esfera penal como na cível, aqueles que as disseminam.

Portanto, além de ser um exercício de cidadania, a não disseminação de fake news evita muitas dores de cabeça. E para se chegar a essa conclusão, de que o conteúdo da notícia é verdadeiro, é relativamente fácil. Existem sites da internet criados exclusivamente para estes fins, inclusive.

Ademais, outros cuidados seriam checar a fonte da notícia, ler a notícia por completo, conferir a data da notícia (algumas vezes notícias antigas são reeditadas, fora do contexto atual) e, principalmente, desconfiar de matérias sensacionalistas.

Obviamente que todos nós temos nossos candidatos preferidos, e é totalmente legítimo que procuremos angariar votos a estes, mas o convencimento deve partir exclusiva e necessariamente de suas propostas e não da destruição da moral de seus adversários, sobretudo se decorrer de notícias falsas.

Como visto, compartilhar apenas aquilo que tem certeza de que é verdade é uma forma muito sensata de contribuir para uma sociedade melhor.